Contos

A alternativa

É uma cena que há tempos se repete, desde o dia em que meu pai anunciou que tinha perdido o emprego e minha mãe o abraçou dizendo: “Nós havemos de encontrar uma alternativa”  toda sexta-feira, no meio da tarde, o homem de chapéu, terno e gravata toca a campainha e eu abro a porta. Ele sorri, passa a mão no meu cabelo e me entrega o chapéu, que coloco no cabideiro com cuidado. Nas primeiras vezes minha mãe fazia um sinal com a cabeça e eu saía da sala. Agora, com o hábito, não preciso mais do sinal. Vou para meu quarto sozinho e fico lá em silêncio. Faço os deveres da escola, brinco no videogame e coloco peças novas no quebra-cabeça. Duas horas depois, escuto quando o homem se despede e em seguida o barulho da porta da frente se fechando. É quando saio do meu quarto e vejo minha mãe indo para o banheiro tirar o batom e lavar o rosto com sabonete. Ela passa por mim e diz que vai fazer meu lanche.

Na cozinha, minha mãe canta uma música junto com o rádio enquanto prepara meu chocolate quente e me pergunta se fiz a lição. Vejo que ela esconde o dinheiro no meio do livro de receitas. Logo depois chega meu pai, cansado de andar o dia todo à procura de emprego. Ele me dá um beijo e pergunta se já terminei os deveres. Também beija a minha mãe no rosto e ela avisa que o jantar ficará pronto em dez minutos. E em dez minutos a família está reunida em volta da mesa. Conversamos sobre qualquer coisa, sobre coisa nenhuma, sobre o tempo, sobre como está gostosa a comida, sobre a nota que tirei em matemática, sobre os preços que não param de subir, sobre o desemprego que a cada dia aumenta mais, sobre a necessidade de se arranjar alternativa para ganhar dinheiro nesse tempo de crise.

Amanhã é sábado e meu pai vai ficar em casa o dia todo. Talvez ele me ajude a terminar o quebra-cabeça. E sei que minha mãe vai continuar tricotando o meu pulôver novo de lã, porque o inverno está chegando e o único agasalho que tenho já está esgarçado.

Mário Baggio

Mário Baggio é jornalista e escritor. Nasceu em Ribeirão Claro-PR. Mora em São Paulo-SP desde os anos 70. Tem 7 livros de contos publicados: “A (extra)ordinária vida real” (2016), “A mãe e o filho da mãe (2017), “Espantos para uso diário” (2019), “Verás que tudo é mentira” (2020), “Antes de cair o pano” (2022), “A vida é uma palavra muito curta” (2024) e “Vozes para tímpanos mortos” (2025). Publicou contos em várias revistas eletrônicas (Germina, Gueto, Ruído Manifesto, Subversa, entre outras). Escreve semanalmente na revista Crônicas Cariocas. Participou da “Antologia Ruínas” (2020), “Tanto mar entre nós: diásporas” (2021), “Brevemente Infinito” (2024) e Antologia de Contos da UBE-União Brasileira de Escritores (2021 e 2023).

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